O título do blog tem amplo significado. Tanto o autor como o presente espaço estão em constante construção.
(Afinal, somos seres inconclusos...). O blog vem sendo construído periodicamente - como todo blog - através da postagem de textos, comentários e divagações diversas (com seu perdão pela aliteração).

domingo, 7 de abril de 2019

Jesus pregou aos espíritos em prisão?


A frase em epígrafe trata-se de uma das expressões mais controversas do Novo Testamento, devido à sua difícil compreensão. Está contida, implícita ou explicitamente, principalmente nos seguintes textos:

Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água (...). (2 Pedro 3.18-20)

Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo (...). (2 Pedro 2.4)

Resultado de imagem para trevas (...) e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia (...). (Judas 6)

Algumas possibilidades acerca do tema foram sugeridas ao longo da história da Igreja. Vejamos exemplos:

1) Jesus pregou por intermédio de Noé aos habitantes pré-diluvianos da Terra: ou seja, anunciou a possibilidade de salvação aos contemporâneos do patriarca enquanto os mesmos estavam vivos. Chamou-os ao arrependimento. Mostrou o caminho a ser seguido para escapar da perdição. Porém, como sabemos, aqueles homens fizeram ouvidos moucos às benditas palavras e ao exemplo de Noé e, como consequência, todos pereceram no dilúvio, exceto o patriarca e sete pessoas próximas a ele.
Muito embora o texto de Gênesis 6 não faça menção à pregação de Noé, deduzimos que ela tenha ocorrido com base em textos do Novo Testamento. Exemplos: Mateus 24.37-42; I Pedro 3.20; II Pedro 2.5. Ainda que não utilizando palavras, seu testemunho de vida era o anúncio.
Podemos conjecturar que, àquela época, os oito tripulantes da arca foram os únicos eleitos para a salvação, uma vez que em Gênesis 6.3 o SENHOR afirma: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito”. Logo, todo o restante da humanidade daquele período hoje encontra-se no inferno. Seriam os “espíritos em prisão”.
2) Uma segunda posição afirma que, no período entre sua morte e ressurreição, Jesus literalmente pregou àqueles que se encontram no Hades, principalmente aqueles que rejeitaram a salvação à época de Noé. O problema dessa interpretação é que dá azo para uma segunda chance de salvação após a morte, fornecendo subsídio para os defensores do purgatório e contradizendo Hebreus 9.27: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo (...)”. Assim, outra possibilidade é que Cristo tenha ali anunciado sua vitória, bem como a condenação eterna daqueles que partiram para o além sem n’Ele crer. Sobre o referido versículo, João Calvino faz a seguinte observação:
Se alguém contestar, dizendo que alguns morreram duas vezes, como sucedeu a Lázaro e a outros, a resposta é simplesmente esta: aqui o apóstolo está falando da condição ordinária dos homens, porém isenta dessa condição os que, por uma súbita mudança, foram poupados da corrupção (I Co 15.51), já que o apóstolo inclui somente aqueles que se encontram no pó por um longo período de tempo, aguardando a redenção de seus corpos.1
Tal posição fornece a base para uma das cláusulas do Credo Apostólico: “Desceu à mansão dos mortos”.
Quanto a tal cláusula, em seu artigo “Descendit ad Inferna: Uma análise da expressão ‘Desceu ao Hades’ no Cristianismo Histórico”2, o pastor presbiteriano Heber Carlos de Campos nos informa que
(...) originalmente a expressão 'descendit ad inferna' não fazia parte do Credo Apostólico. No tempo de Rufino, ela apareceu inserida no Credo, mas não como um acréscimo ao que já havia, sendo apenas uma expressão substitutiva de “crucificado, morto e sepultado.” O Credo de Atanásio (escrito por volta do século V ou VI) segue mais ou menos a mesma ideia do Credo de Aquiléia, onde a expressão 'desceu ao Hades' substitui a expressão 'sepultado', não sendo um acréscimo a ela. Até então, não havia nenhuma modificação significativa na doutrina cristã com respeito à situação da pessoa do Redentor ao morrer, pelo menos nas traduções mais conhecidas do Credo.
Mais adiante, o autor aponta que
A doutrina, que usualmente é chamada de “Descida ao Hades”, desenvolveu-se de forma efetiva na igreja cristã com o passar dos séculos, numa tentativa de reviver a doutrina pagã do Hades. Dentro do pensamento grego havia um lugar para onde iam todos os mortos — o Hades. Este era dividido em dois setores: o Elísio (para onde iam todos os bons) e o Tártaro (para onde iam todos os maus). Essa idéia greco-pagã é razoavelmente coerente, pois pelo menos os maus iam para o lugar chamado inferno, que é uma das traduções de Tártaro, e os bons iam para o paraíso, que é a tradução de Elísio.
A passagem bíblica contida em Lucas 16.19-31 tem sido utilizada para chancelar o pensamento acima em alguns segmentos cristãos. No referido texto, Jesus que nos dá informações extremamente relevantes quanto à vida futura. Quanto ao céu e ao inferno. Quanto ao gozo e quanto ao sofrimento eterno. Trata-se da história do Rico e Lázaro. Lembremos:
Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado.
No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós. Então, replicou: Pai, eu te imploro que o mandes à minha casa paterna, porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento. Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.
Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos. (Lucas 16.19-31)
Do texto em apreço podemos extrair, dentre outras, as seguintes lições a respeito do inferno:
I) As almas que ali se encontram são atormentadas: "No inferno, estando em tormentos".
II) Não obstante, quem ali estiver terá consciência de que os salvos estarão em regozijo e paz: "Viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio".
III) Não haverá consolo para seus habitantes: "Aqui, ele (Lázaro) está consolado; tu, em tormentos".
IV) Uma vez no inferno, eternamente no inferno: "Os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós."
V) Os perdidos clamarão, mas não serão ouvidos: "Eu te imploro".
VI) Já não restarão boas lembranças, bem como será impossível auxiliar os parentes para que também não venham a ir para o inferno.

Quanto à ideia de que o Hades possuía dois “compartimentos”, seus defensores depreendem com base versículo 23: o rico encontrava-se no inferno, e Lázaro junto de Abraão. Conquanto tivessem contato visual, havia entre os locais um abismo intransponível (versículo 26). Tal doutrina é piamente aceita no meio pentecostal.
No entanto, tal pensamento deve ser rejeitado, pois a crença reformada está ancorada no fato de que há dois locais para onde vão os mortos: os que não creram em Cristo diretamente são alocados no inferno, onde aguardam o Juízo Final; já os que morreram no Senhor vão imediatamente estar com Ele. Como exemplo, citemos:
a) As palavras de Jesus proferidas ao ladrão arrependido na cruz: “Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.” (Lucas 23.43)
b) E Paulo escrevendo aos Filipenses: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.” (Filipenses 1.23)

3) Uma versão semelhante à segunda apresenta a possibilidade de Jesus ter proclamado sua vitória aos anjos caídos e, por conseguinte, a derrota eterna dos mesmos.
O maior problema dessa versão não reside no fato de Jesus ter pregado aos espíritos em prisão, o que é líquido e certo uma vez que as Escrituras assim nos asseguram, mas sim sobre quem são esses anjos caídos. Algumas teorias têm sido apresentadas ao longo da História, sem, contudo, podermos chegar a um denominador comum.
Em seu artigo “Revisitando os Espíritos em Prisão: Uma Análise de 1Pedro 3.18-22 e Judas 6”3, Leandro Lima aponta que “muitos dos primeiros pais da igreja seguiram a interpretação judaica que relacionava espíritos aprisionados com anjos que haviam se relacionado com mulheres antes do dilúvio, conforme relata o texto de Gênesis 6.1-2.3”. Para ratificar sua fala, cita a posição de Justino Mártir (100-165 d.C.), Irineu de Lião (130-202 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), Orígenes (c. 185 d.C.) e Tertuliano (160-220 d.C).
Para o judeu messiânico David H. Stern,
Os espíritos aprisionados são os “anjos que pecaram” (2 Pe 2.4) e “não mantiveram sua autoridade originária” (Jd 6). Isto é, eles são os b’nei-ha’elohim (filhos de Deus os filhos dos anjos), também chamados nefilim (caídos), que caíram de sua própria esfera, o céu, para a terra, e “vendo (...) que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres” nos dias de Noach (Gênesis 6.2-4).4 (Negritos do autor)
Sobre a queda dos anjos, comentando 2 Pedro 2.4, Calvino afirma que
Muitos homens são curiosos e fazem intermináveis investigações sobre essas coisas; visto, porém, que Deus, na Escritura, tocou só de leve nelas, e, por assim dizer, no que interessava, assim ele nos lembra que devemos viver satisfeitos com este pequeno conhecimento. 5
Relembremos o que nos diz o texto de Gênesis 6.1-4:
Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos. Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.
Para os “filhos de Deus” do texto supra, há duas principais interpretações, quais sejam:
I) Trata-se dos descendentes da linhagem piedosa de Sete, em contraposição à linhagem ímpia de Caim denominada “filhos dos homens”. É a versão mais aceita atualmente dentre a cristandade, creio que não apenas por convicção com bases textuais, mas principalmente pela dificuldade em adotar o posicionamento a seguir apresentado.
II) Diz respeito ao anjos, que cobiçaram as mulheres da Terra e com elas mantiveram relações sexuais, dando origem aos gigantes apresentados no versículo 4.
Como argumento favorável à posição de que os filhos de Deus a que se referem Gênesis 6 são os anjos, temos dois versículos do Antigo Testamento, a propósito os dois únicos versículos veterotestamentários que apresentam a expressão "filhos de Deus".
São eles:

Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles. (Jó 1.6)

Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força. (Salmos 29.1)

Embora somente Jó 1.6 se refira aos seres angelicais de maneira explícita, o contexto de Salmos 29.1 nos leva a depreender que a ordem, em primeira instância, é direcionada a uma assembleia celestial.
Tal posicionamento está também presente na tradição rabínica.
Por outro lado, os que adotam a posição contrária se pautam nas palavras de Jesus registradas em Lucas 20.35,36:
Mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento. Pois não podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição.

Porém, notemos que a Palavra não nos diz com clareza que as criaturas angélicas são assexuadas, mas apenas que "não casam, nem se dão em casamento". Ademais, outros textos bíblicos nos indicam que tais seres podem perfeitamente assumir a forma humana e agir como nós.6
Quanto à possibilidade de os anjos que pecaram estarem em uma prisão real, João Calvino apresenta a seguinte opinião:
Mas não devemos imaginar um determinado lugar onde os demônios se encontram encerrados, pois o apóstolo simplesmente tencionava ensinar-nos quão miserável é sua condição, desde o tempo em que apostataram e perderam sua dignidade. Pois aonde quer que vão, arrastam após si suas próprias cadeias, e permanecem envoltos em trevas. Sua extrema punição é, entretanto, deferida até o grande dia vindouro.7
Concordo com o questionamento de VanGemeren8, citado pelo Reverendo Leandro Lima, no artigo já mencionado: "Por que cristãos que creem em tantos fatos sobrenaturais da Bíblia têm dificuldade em crer que, de algum modo, anjos caídos se relacionaram com mulheres e foram punidos por Deus?"

Outro texto frequentemente citado com o objetivo de ratificar a descida de Cristo ao Hades é Efésios 4.9,10: “Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas.” Calvino, no entanto, discorda dessa posição. Para o teólogo, quanto às “regiões inferiores da terra”,
Estas palavras nada mais significam que a condição da presente vida. Torturá-las a ponto de fazê-las significar o purgatório ou o inferno, constitui uma excessiva estultícia. O argumento que extraem do grau comparativo é por demais frágil. Aqui se traça uma comparação, não entre uma e outra parte da terra, mas entre a totalidade da terra e do céu; como se ele quisesse dizer: “Daquela sublime habitação, Cristo desceu ao nosso profundo abismo. ”9
Particularmente, entendo que o pensamento que mais se adequa à fé cristã e ao contexto da passagem é o primeiro apresentado no presente capítulo: Jesus pregou por intermédio de Noé aos habitantes pré-diluvianos da Terra.
Mas fato é que há várias vertentes teológicas que tentam explicar tais passagens bíblicas, as quais apontam para a descida de Cristo ao Hades. Católicos, Luteranos, Anglicanos, Reformados, Arminianos, cada um com seu ponto de vista, e com seus textos bíblicos selecionados com o escopo de justificar seu posicionamento. Como eu disse no início do presente capítulo, trata-se de um dos textos mais controversos do Novo Testamento. Graças a Deus que nossa salvação não está atrelada à plena compreensão de tais passagens.

1João Calvino. “Hebreus”, p. 238.
2Revista Fides Reformata 4/1, 1999.
3 Revista Fides Reformata XXI N.º 1, 2016.
4 David H. Stern. “Comentário Judaico do Novo Testamento”, p. 820.
5 João Calvino. “Comentário das Epístolas Gerais”, p. 323.
6Exemplos: Gênesis 18.7-8 e Hebreus 13.2.
7João Calvino. “Comentário das Epístolas Gerais”, p. 508.
8 Teólogo, autor e professor de Antigo Testamento e Línguas Semíticas da Trinity International University.
9João Calvino. “Comentário aos Efésios”, p. 93.


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Soli Deo Gloria

Alessandro Silva

sábado, 23 de março de 2019

O diabo é o pai do rock?


Muito embora não saibamos exatamente qual a origem dessa ligação entre o gênero musical rock and roll e o Adversário de nossas almas, fato é que essa é uma ideia que faz parte do inconsciente coletivo da humanidade. Alguns nisso creem piamente, condenando sumariamente tal ritmo e todos os seus apreciadores ao inferno. Já outros, embora discordem, continuam a afirmar tal premissa, mesmo que de maneira jovial.
Para melhor compreensão desse pensamento, se faz necessário lembrarmos a origem do rock. Suas raízes estão estabelecidas em outro ritmo, o blues, que por sua vez provém dos spirituals e narrativas tradicionais africanas. A “sala de parto” do blues foi o extremo sul dos Estados Unidos, mais especificamente os Estados do Alabama, Mississipi, Louisiana e Geórgia. Já as “parteiras”, foram os escravos que, no século XIX, eram empregados nas plantações de algodão daquela região, e utilizavam tal ritmo para expressar sua tristeza face às longas jornadas de trabalho a que eram submetidos. Lembremos que blues, no inglês, tem como sinônimas as palavras melancolia e tristeza.
O primeiro bluesman que ficou conhecido por citar o diabo em suas composições foi Robert Johnson, na década de 1930. Johnson, aliás, supostamente fez um pacto para obter fama e dinheiro através da música.
Já na década de 1970, despontaram algumas bandas fortemente influenciadas pelo blues elétrico, tais como Led Zeppelin e Black Sabbath, precursores do gênero que ficou conhecido como heavy metal. Mais especificamente o Black Sabbath, apresentava letras e arte visual de seus álbuns explicitamente voltadas às referências satânicas. Já o Led Zeppelin, embora possuísse temática variada, mormente é lembrada como adepta de ensinamentos ocultistas e pelas supostas mensagens subliminares em suas músicas.
Ao longo dos anos, várias vertentes do rock surgiram – thrash metal, death metal, black metal, dentre outros –, com alguns de seus representantes usando e abusando de letras e visual “do mal”, por vezes de maneira espalhafatosa, caricata e mesmo pueril, se autodeclarando servos de satanás. Querem parecer assustadores mas conseguem, no máximo, serem ridículos, com suas maquiagens e indumentárias inspiradas em filmes de terror de quinta categoria.
Mais recentemente, tais recursos tem sido ad nauseam explorados pela banda norte-americana Marilyn Manson, liderada por Brian Hugh Warner, vocalista que assume o mesmo epíteto do grupo.
Apesar de muitos de fato acreditarem na balela apresentada por tais bandas e cantores, é óbvio que tudo se trata de mera jogada de marketing, com vistas ao filão do mercado composto por jovens descerebrados, rebeldes sem causa e mimadinhos de classe média que intentam chocar seus pais e a sociedade com seu visual e preferência musical, mas que conseguem apenas serem mais uma dentre as tribos urbanas frequentadoras de shopping center.
Lembremos que, à luz das Escrituras, satanás utiliza a própria Palavra de Deus para tentar ludibriar o homem e induzi-lo ao erro e ao engano. Foi assim com nossos primeiros pais no Éden (Gênesis 3), bem como na tentação de Jesus (Mateus 4). Ele “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (I Pedro 4.8). Muitas vezes, ele usa pessoas acima de qualquer suspeita para levar a efeito seus desígnios malignos. No caso de Jó, usou a própria esposa do patriarca, a qual foi chamada por Calvino de organum satani 1. Ele tem a seu serviço falsos pastores e falsos mestres, que diariamente se utilizam da mídia para extorquir dinheiro dos fiéis e construir seus impérios pessoais. Eles estão também nas igrejas locais, disseminando heresias e causando divisões.
Esqueça aquela imagem do diabo com a qual você está acostumado e que ilustra as capas dos álbuns e os souvenires ligados a tantas bandas de rock. Tal imagem está mais relacionada a figuras lendárias e à mitologia do que à descrição do adversário apresentada na Bíblia. Esta, aliás, não apresenta pormenores sobre a aparência do inimigo de nossas almas.
No entanto, no Antigo Testamento há dois textos que por vezes são apresentados em prédicas e estudos como sendo referências veladas a Satanás. São eles: Isaías 14.12-23 e Ezequiel 28.12-19. Vejamos:

Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. (Isaías 14.12-14)

Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: Assim diz o SENHOR Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem. (Ezequiel 28.12-17)

Muito embora possa parecer que os textos em questão se refiram a Satanás, os contextos apontam claramente para o rei da Assíria (no caso de Isaías) e para o rei de Tiro (para a profecia de Ezequiel). Logo, qualquer interpretação que fuja disso é mera conjectura, apesar de que inclusive alguns pastores reformados defendem a tese de que os textos em apreço são referências ao Inimigo.2 No time daqueles que discordam disso, cito J.I. Packer, o qual afirma que
Alguns têm pensado que os termos com que são descritos os orgulhosos reis de Tiro e de Babilônia, em Ezequiel 28.11-19 e Isaías 14.12-14, respectivamente, devem sua origem às narrativas tradicionais da queda de Satanás, cuja imagem aqueles arrogantes reis estampavam de maneira notável; mas essa opinião não pode ser provada.3
Quanto à aparência do diabo e seus legionários impressa no inconsciente coletivo dos cristãos, temos algumas possíveis explicações: as asas de dragão são baseadas na descrição metafórica de Apocalipse 20.1,2: "Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos [...]."
Os pés, os chifres e a barba, podem ter inspiração nos sátiros, seres mitológicos, ou ao deus grego Pã. Já a cor vermelha, uma das cores quentes, alude ao fogo. Na “Divina Comédia”, Dante Alighieri o descreve como um ser peludo portador de três cabeças, com asas enormes semelhantes às dos morcegos.
Gostaria de ilustrar o presente capítulo com uma frase atribuída ao Rev. Augustus Nicodemus (desconheço a fonte):
"Quando Judas ficou possesso por satanás, não caiu no chão, não revirou os olhos, não falou em voz diferente, não ficou doente ou encurvado, não ganhou uma força descomunal. Simplesmente saiu e foi ganhar dinheiro vendendo Jesus aos sacerdotes (Lucas 22.3-6). Tem muito mais gente possessa por satanás do que se pensa."
Parafraseando:
Quando uma pessoa está a serviço de satanás, ela não vai ouvir rock'n'roll. Ela sai e vai estuprar, matar. Dentre esses, vemos distintos senhores muitíssimo bem trajados e ocupando cargos importantes na sociedade, fãs de samba e pagode cujo passatempo é abusar sexualmente de crianças e adolescentes. Jovens de classe média-alta, ouvintes de sertanejo universitário, que matam os pais para ficar com a herança. Pais fãs de MPB que maltratam e até mesmo tiram a vida de seus filhos por motivos fúteis. Políticos apreciadores de música clássica que desviam verbas destinadas à saúde e a educação, fazendo com que milhares de pessoas padeçam por conta de sua inconsequência. Tem muito mais gente possessa por satanás do que se pensa.

Talvez alguém possa afirmar que o ritmo musical ora em pauta tenha o poder de influenciar negativamente seus ouvintes. Mas, dependendo do conteúdo lírico, qualquer outro ritmo musical pode exercer esse poder.
(Quanto à paráfrase acima apresentada, quero deixar claro que nada tenho contra quaisquer gêneros musicais. Ilustrei minha fala com diferentes ritmos para expor a ideia de que o mal não está atrelado à música que se houve, mas à corrupção do coração do homem.)

1Instrumento de satanás, em latim.
2Hernandes Dias Lopes e Paulo Anglada são dois exemplos. Vide o comentário bíblico “2 Pedro e Judas” (p. 64), escrito pelo primeiro, e “Soli Deo Gloria” (p. 206), de autoria do segundo.

3J.I. Packer. “Vocábulos de Deus”, p. 132.

(Texto extraído do meu livro "A realidade do sofrimento eterno - E como escapar dele", disponível no Clube de Autores).


Soli Deo Gloria

Alessandro Silva

sábado, 2 de março de 2019

A comunhão dos santos


"E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações". (Atos 2.42)

O texto em apreço nos retrata algumas características da igreja nos primórdios do cristianismo. Essas qualidades deviam estar presentes também na igreja de nossos dias, embora por vezes não estejam. São elas: a perseverança no ensino disseminado pelos apóstolos à cristandade, a comunhão, o partir do pão e as as contínuas orações.
Observando tais características, podemos afirmar com convicção que todas elas convergem para a comunhão, bem como por ela são alinhavadas.
1) Se os irmãos perseveram de maneira unânime nas doutrinas bíblicas, isso é um indicativo de que há comunhão entre eles. É um sinal de que a singeleza de coração e a humildade encontram guarida em suas vidas. Do contrário, cada um seguiria aquilo que lhe apraz e, ao invés de humildade, haveria soberba e sentimento de superioridade dentre os crentes. "Oh! Como é bom e agradável viverem os unidos os irmãos!" (Sl 133.1).
Negar as doutrinas cardeais da nossa fé corresponde a permitir a entrada de heresias e invencionices em nosso meio. E isso pode minar a comunhão do homem com Deus e com seu próximo.
2) O "partir do pão" contava com um significado especial dentre os judeus. Significava intimidade, união, igualdade de propósitos. Só realizamos refeições em conjunto com aqueles que são de nossa estima, em cuja companhia temos prazer. Com o advento da Ceia do Senhor, tal significado foi exponencializado. Além da denotação já existente, o termo foi encorpado com o sentido espiritual. Hoje, o "partir do pão" está intrinsecamente relacionado ao anúncio do sacrifício vicário de Cristo e, por conseguinte, à comunhão que temos uns com os outros enquanto Corpo, e à comunhão que temos com o Cabeça desse Corpo.
3) Quanto às orações, é fato que a falta de comunhão com o Pai e com Seus filhos faz com que, via de regra, nossas palavras se tornem mera verborragia solta ao vento.

Etimologicamente, a palavra comunhão vem do grego koinonia, que originalmente significa comunidade, isto é, o viver em comunidade, estar na companhia daqueles que possuem os mesmos propósitos. Companhia, a propósito, vem do latim cum panis, que quer dizer comer pão juntos, assentar-se à mesa com aqueles cujos ideais são os mesmos nossos.
Estar em comunhão é se preocupar com o outro. É sentir a dor do irmão. É chorar com os que choram. É alegrar-se com os que se alegram. Justamente por isso a Bíblia nos apresenta cerca de cinquenta dos chamados "mandamentos mútuos", ou "mandamentos de reciprocidade", dentre os quais encontramos os seguintes:
  1. Amai-vos uns aos outros (Jo 13.34);
  2. Acolhei-vos uns aos outros (Rm 15.7);
  3. Saudai-vos uns aos outros (Rm 16.16);
  4. Tende igual cuidado uns pelos outros. (I Co 12.24-25);
  5. Sujeitai-vos uns aos outros. (Ef 5.18-21);
  6. Suportai-vos uns aos outros. (Ef 4.1-3 e Cl 3.12-14);
  7. Confessai os vossos pecados uns aos outros. (Tg 5.16);
  8. Perdoai-vos uns aos outros. (Ef 4.31-32 e Cl 3.12-13);
  9. Não vos julgueis uns aos outros. (Rm 14.13);
  10. Não faleis mal uns dos outros. (Tg 4.11);
  11. Não vos provoqueis uns aos outros. (Gl 5.25-26);
  12. Não tenhais inveja uns aos outros. (Gl 5.25-26);
  13. Não mintais uns aos outros. (Cl 3.9-10);
  14. Edificai-vos uns aos outros. (I Ts 5.11);
  15. Instrui-vos uns aos outros. (Cl 3.16);
  16. Exortai-vos uns aos outros. (I Ts 5.11);
  17. Falai uns aos outros com salmos e hinos e cânticos e cânticos espirituais. (Ef 5.18-20);
  18. Admoestai-vos uns aos outros (Rm 15.14);
  19. Levai as cargas uns dos outros. (Gl 6.2);
  20. Sede benignos uns para com os outros. (Ef 4.31-32);
  21. Orai uns pelos outros. (Tg 5:16).
Sem comunhão, não há vida cristã. Sem comunhão, a vontade do Pai não é feita. Sem comunhão (falo aqui da comunhão com Deus), não há salvação.


Soli Deo Gloria

Alessandro Silva

sábado, 10 de junho de 2017

Os gêneros literários e o texto de nossa existência

Como sabemos, as modalidades literárias são influenciadas pelas personagens – pessoa que age –, pelo espaço e pelo tempo. Destarte, com estagnação, inércia, não se escreve história. Seja ela fictícia ou real. 
É fato que há vários gêneros no mundo da Literatura, e que esses gêneros subdividem-se em diversos outros. Contudo, na correria da vida, por vezes não nos apercebemos dessa variedade de estilos literários que nos cercam. Não enxergamos a poesia que permeia nosso dia-a-dia, não nos permitimos sonhar como se vivêssemos num conto, não comparamos os fatos como numa parábola antes de tomarmos decisões. Às vezes, em meio a devaneios e delírios, nos imaginamos em meio a uma fábula; contudo, dela não extraímos a imanente lição de moral.
Não obstante, por considerarmos a felicidade uma lenda, é comum, por distração, pouco ou nenhum cuidado termos ao escrever a crônica da vida.
Outrossim, seja qual for o estilo que adotamos para escrever as linhas de nossa existência, deve ali estar impresso nosso caráter, bem como nossa integridade. Física, moral e espiritual. Física, porque nossa vida deve expressar o cuidado que temos com nós mesmos e, por conseguinte, com nosso corpo. Moral, é óbvio, porque temos que demonstrar inteireza e retidão em nossas atitudes, idoneidade e conduta ilibada perante a sociedade. Espiritual porque devemos ter a consciência de que um dia havemos de prestar contas ao nosso Criador, e nosso comportamento, nossa representação perante Ele em muito influenciará esse encontro. Ele bem sabe se realmente colocamos sinceridade em nossos atos, se realmente somos aquilo que demonstramos ou se estamos meramente sendo canastrões.
Na realidade, somos eternamente atores representando a nós mesmos. O mais interessante é que não apenas representamos. Não apenas temos sobre os nossos ombros o peso de sermos os protagonistas. Também escrevemos e dirigimos, além de sermos os contra-regras, figurinistas e maquiadores nessa “novela da vida real” que é a nossa existência. Ou seja, devemos ter todo o cuidado do mundo, mesmo nos mínimos detalhes, para que todas as cenas, atos e falas saiam conforme o previsto. Devemos ao máximo nos esmerarmos para não cometermos gafes, esquecermos o texto. Nem sempre contracenamos com alguém que possa nos dar a deixa; por vezes apresentamos um monólogo, somos o único foco das atenções. Mas uma coisa é certa: por maior que seja a dificuldade que encontramos na cena, nunca estamos sozinhos: aquele que concebeu nosso personagem observa todos os nossos passos e pronto está a amparar, animar, auxiliar e ensinar sempre que necessário. E não são poucas as vezes que precisamos. 
Conveniente ressaltar o valor das minúcias. Por menores que sejam os pormenores, todos tem seu grau de importância e influenciam no resultado final. Logo, todo cuidado é pouco para que tudo saia conforme planejamos.
E cada dia de vida, no qual temos a oportunidade de representarmos a nós mesmos, dando direção ao desfecho, é uma dádiva, um presente vindo do alto. O que não podemos é cair no erro de crermos num fatalismo, numa percepção ingênua ou mágica da realidade. Como seres históricos que somos, não basta estar “no” mundo: é necessário estar “com” o mundo.
Dessa maneira, cada dia de vida é um capítulo escrito na história de nossa existência. Continuemos, pois, a escrever nossa história. E uma história não se escreve só com uma página. Sigamos, pois, e prossigamos cumprindo nossa missão. Ghost-writers de nós mesmos. E que venha o próximo capítulo.

Soli Deo Gloria
Alessandro Cristian

sábado, 6 de maio de 2017

Facebook ou Fakebook?

Na qualidade de possuidor de perfil no Facebook há quase 10 anos, e considerando o que tenho presenciado na aludida rede social durante esse período, passo a elencar algumas razões pelas quais entendo que tal nome merece ser alterado para Fakebook. Vejamos os fatos:
1. As pessoas agem como se suas vidas fossem um eterno feriado, uma felicidade contínua. Assim, pinçam alguns momentos aproveitáveis de suas (na realidade) enfadonhas vidas e as transformam em postagens, com o objetivo de aparentarem isenção às dificuldades, dores e aflições da vida.
2. As pessoas editam suas fotos para utilizá-las no perfil, de maneira que aparentem ter pelo menos vinte anos a menos do que realmente possuem.
3. As pessoas postam indiretas diariamente, já que não contam com a hombridade e a coragem necessárias para proferir o que pensam diretamente a seus desafetos.
4. As pessoas adicionam a seu rol de amizades centenas de usuários que sequer conhecem, ou com as quais tiveram o mínimo contato, somente para parecerem populares ou “importantes”.
5. As pessoas te enviam convite para amizade virtual, no entanto, quando te encontram pessoalmente, fingem que não te conhecem.
6. As pessoas atam relacionamentos à distância, via de regra ilusórios, não atentando para o fato de que “relacionamento virtual” é contradição de termos, uma vez que relacionamento denota contato ou proximidade física entre as partes.
7. As pessoas, conquanto em sua maioria não sejam especialistas ou, em parte dos casos, possuam conhecimento raso nos assuntos a que se propõe postar e debater, agem como se fossem verdadeiros Ph.D. nas mais diversas áreas.
8. As pessoas citam frases pinçadas alhures, atribuindo a si mesmos a autoria das ideias, muito embora sequer conheçam as regras mínimas do vernáculo.
9. As pessoas hipocritamente apresentam na rede social o exato oposto daquilo que vivem em seus cotidianos.
10. As pessoas, mormente os mais jovens, periodicamente postam fotos com seu novo amor eterno, acompanhados de juras que não resistem ao primeiro desentendimento. Como disse o poeta popular, “eternidade da semana”.

PS 1: Pensando bem, conforme observa-se acima, apesar de o Facebook merecer o epíteto “Fakebook”, o grande problema reside em parte das pessoas que o utilizam, e não na rede social propriamente dita. Aliás, como rede social, é um grande instrumento de comunicação e informação. Basta ser utilizado de maneira coerente.

PS 2: Para cada um dos casos elencados há exceções, óbvio.


PS 3: Inacreditável que milhares de “adultos” acreditem e percam tempo com aplicativos do tipo “Qual a primeira letra do nome do seu futuro par?”, “Com qual celebridade você se parece”, e asneiras congêneres. Para adolescentes que estão descobrindo o mundo tais testes podem até ser aceitáveis, mas para trintões, trintonas, quarentões, quarentonas, e até cinquentões e cinquentonas isso é, no mínimo, horrível.

Soli Deo Gloria
Alessandro Cristian

sábado, 8 de abril de 2017

Kurt Cobain: ganhou o mundo, mas perdeu a alma...

No dia 08 de abril de 1994, isto é, há vinte e três anos, a estrutura do showbusiness foi abalada por uma notícia estarrecedora: Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, havia sido encontrado morto em seu apartamento (em Seattle) por um eletricista, contratado para consertar o sistema de alarme da residência. Kurt estava com uma arma sobre o peito, apontando para o queixo. De acordo com os médicos responsáveis pela autópsia, o líder da banda mais influente da década de 1990 havia morrido (com um tiro na cabeça) a cerca de 48 horas da descoberta. 
Em 1991, com o lançamento de “Nevermind”, seu 2º álbum, o Nirvana tornou-se mundialmente conhecido. Desbancou do topo das paradas de sucesso algumas das “instituições” do pop, como Michael Jackson e Guns’n’Roses, fato inédito para uma banda recém saída do underground. A música “Smells like teen spirit” foi uma das mais executadas daquele ano, e seu estilo serviu de inspiração para a maioria, se não todas as bandas daquela década, inclusive aqui no Brasil.
À época, de repente todo mundo queria colocar guitarras distorcidas nas músicas e usar uma camisa xadrez de flanela amarrada à cintura. Desde então, até nas músicas infantis percebemos certo peso e distorção nas guitarras.
Músicas com estrutura do tipo “parte lenta, quase sussurrada + explosão no refrão” viraram febre, e passaram a fazer parte até do cancioneiro gospel.
O Nirvana foi, incontestavelmente, o responsável pela popularização do “rock de garagem”, o chamado rock alternativo, naquela ocasião denominado grunge. Até então o rock que dominava a grande mídia era a “farofa” do tipo Bon Jovi, Guns’n’Roses e similares.
Indubitavelmente, o estilo niilista do Nirvana era o reflexo do way of life de Kurt Cobain.
Calcula-se que, até hoje, Nevermind vendeu cerca de 35 milhões de cópias. Claro que Kurt, enquanto underground, desejava fazer sucesso. Se assim não o fosse, não teria assinado contrato com uma grande gravadora. O que provavelmente ele não queria era o pacote que acompanha o sucesso: fãs histéricos, falta de privacidade, pressão para continuar a compor canções bem-sucedidas, turnês intermináveis.
Dessa maneira, tudo isso aliado aos seus constantes problemas com drogas e com sua esposa, Courtney Love, levaram Cobain a cometer o suicídio provavelmente em 06 de abril de 1994, quando então tinha 27 anos (alguns questionam se a morte foi causada por suicídio ou homicídio - não vem ao caso).
Diante da história desse homem, impossível não se lembrar das palavras de Jesus registradas no Evangelho de Mateus, capítulo 16, versículo 26: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?”.
Kurt ganhou o mundo inteiro. Chegou ao topo das paradas pop. Recebeu rios de dinheiro. Tornou-se mundialmente conhecido. Apareceu em todos os órgãos de imprensa.
Mas perdeu sua alma. Não estou com isso querendo dizer que ele foi para o inferno, ou mandá-lo para lá. Só Deus pode fazê-lo ou não. Não estou falando que é para lá que Kurt foi. Não sabemos o que se passou naquela mente em seus últimos instantes, e menos ainda quanto ao lugar em que ele estará na eternidade. Mas Deus sabe.
No entanto, chamo a atenção para o fato de que a palavra “alma” também pode significar “vida”, “ânimo”, “coragem”, “sentimentos”. Nesse sentido, sem dúvida ele perdeu sua alma. Sua vida. Seu ânimo. Sua coragem de prosseguir. Seus sentimentos. Tudo isso em decorrência de ter ganho o mundo.
Enfim, ganhou o mundo, mas perdeu a alma. Infelizmente.
Soli Deo Gloria
Alessandro Cristian                                          

sexta-feira, 24 de março de 2017

"Logan" e a Bíblia

Passadas três semanas da estreia de "Logan", penso ser o momento ideal para a postagem do presente texto.
Isso porque aqueles que são fãs do personagem, bem como aqueles que se interessam por filmes baseados em HQ em geral, certamente já assistiram ao filme (talvez mais de uma vez, como é o meu caso). Logo, não vão se importar com os spoilers.
Já os demais, que ainda intentam assistir à película, peço que interrompam por aqui a leitura (a não ser que não se importem, claro).
A finalidade do presente texto é demonstrar paralelos entre cenas e diálogos do filme em questão com passagens da Bíblia Sagrada.
Óbvio que aqui veremos doses generosas de "viagens" deste signatário. Não quero dizer que o autor/diretor teve a intenção de citar as Escrituras, tampouco nelas se inspirou. Trata-se apenas de um ponto de vista.
Isto posto, vejamos alguns desses momentos:

1) Aos primeiros minutos do filme, num diálogo no interior do tanque no qual vive o Professor Xavier, Logan retruca:
"- Você sempre achou que fazíamos parte do plano de Deus, mas na verdade somos um erro de Deus".
Quando algo não acontece exatamente como o planejado, ou quando algo que nos contraria a vontade acontece, mormente a primeira reação do ser humano é culpar a Deus. Reconheçamos que é dificílimo afirmar "Seja feita a vossa vontade", quando o que mais gostaríamos é que fosse feita a nossa vontade. E, como sabemos, é fato que nem tudo acontece de acordo com o que planejamos. Assim, as decepções fazem parte da vida de qualquer um.
No que diz respeito àquela revolta que vez por outra toma conta de nosso ser por algumas peculiaridades que apresentamos - aparência física, temperamento, classe social, etc., cabe-nos relembrar os seguintes textos:
"Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?" (Isaías 45.9)
"Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?
Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?" (Romanos 9.20, 21)⁠⁠⁠⁠

2) Percebendo que o aprisionado Caliban reluta em usar seus dons para ajudar na localização de Logan, Xavier e Laura, Donald Pierce dispara: "- Você jogava no meu time, ajudou a matar todos os velhos mutantes... O que aconteceu? Entrou para a igreja?"
Observamos em nossa sociedade o quão comum é essa confusão feita entre a real conversão de alguém com a mera mudança de religião.
Penso que a intenção de Pierce (ou do roteirista, como queira) era, na verdade questionar se Caliban havia se convertido ao cristianismo, haja vista sua patente mudança de comportamento e de ideias - uma verdadeira metanoia.
Claro está que, arrependido de seus serviços prestados àqueles que pretendiam exterminar os mutantes, Caliban decidiu, de fato, "mudar de time", como zombou Pierce.
Poderíamos citar diversos versículos bíblicos relacionados à conversão, mas creio que somente Efésios 5.11 seja o suficiente para ilustrar o caso de Caliban: "E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as".⁠⁠⁠⁠

3) O momento em que Caliban, aprisionado por Pierce e sua trupe, numa das cenas de batalha obtém êxito em alcançar duas granadas, detonando-as dentro do furgão/cativeiro em que se encontrava. Conquanto tenha sido um ato suicida, a qual teve por escopo criar oportunidade para a fuga de Logan e Laura, certamente levou consigo alguns dos opositores. A referida cena me lembrou, guardadas as devidas proporções, do momento derradeiro de Sansão, ocasião em que empurrou duas colunas do templo de Dagom, fazendo-o cair sobre aqueles que o aprisionaram e dele faziam chacota.
Pude imaginar Caliban clamando, à maneira do citado juiz de Israel: “Morra eu com os filisteus!” (Juízes 16.30). Ou, numa paráfrase, “Morra eu com aqueles que nos perseguem!”.

4) Ao chamar a atenção de Logan, em um dos diálogos Charles Xavier brada: "- Seja como o resto do mundo que culpa as outros por suas próprias merdas!". Ou seja, alude à transferência de responsabilidade, tão comum no ser humano. Afinal, sempre foi muito mais fácil imputar a culpa ao próximo ao invés de assumi-la. Tudo começou no Éden:
"E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?
E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.
E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.
E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi." (Gênesis 3:9-13)⁠⁠⁠⁠

5) Na cena final do filme – quem diria que um dia veríamos o Carcaju chorar... – , agonizando e com Laura/X-23 chorando ao seu lado, Logan profere suas últimas palavras: “– Não seja aquilo que fizeram de você...” e “– Então essa é a sensação de ter uma filha...”.
Quem é pai (ou mãe) bem sabe a que Logan se refere. Acredito que ser pai é a maior bênção que já me foi concedida. “Eis que os filhos são herança do Senhor (...)” (Salmos 127.3).

6) Na cena que se passa no quarto do hotel, Professor Xavier e Laura assistem ao filme "Os brutos também amam", no qual em um dos momentos percebe-se os atores em meio a um sepultamento recitando a oração do "Pai nosso" (Mateus 6.9-13).

7) A película tem sangue, muito sangue... Chega a lembrar o Antigo Testamento.

Soli Deo Gloria
Alessandro Cristian